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Precariedades elétricas e o papel dos gases combustíveis Data: 06/05/2010
Profº Edmilson Moutinho - USP
Todos os jornais já publicaram que o forte calor deste verão fez com que fossem batidos os recordes históricos de consumo de energia elétrica no país. Segundo o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), em vários dias, entre dezembro e fevereiro, a demanda de eletricidade igualou (e mesmo superou) os 70 GW.
Com o excesso de chuvas, principalmente na Região Sudeste, fazendo com que os reservatórios do sistema hidroelétrico apresentem níveis elevados de água armazenada, o ONS garante que o país dispõe de energia abundante para atender às fortes demandas.
Contudo, os problemas de abastecimento e os riscos de apagões parecem sempre presentes. Apesar de os reservatórios das usinas hidrelétricas estarem cheios, o ONS tem acionando algumas termelétricas a gás natural para evitar problemas no sistema elétrico.
Essa solução não tem causado maiores inconvenientes nos mercados dos gases, pois os sistemas de suprimento de gás ainda sofrem da queda de consumo de 2009. No entanto, com o rápido crescimento econômico que se espera para 2010, a folga energética desaparecerá e os problemas de suprimento elétrico, bem como os conflitos em relação aos vários usos dos gases (que já estavam presentes em meados de 2008), deverão acentuar-se novamente.
Essa situação confunde o bom senso dos consumidores e impõe desafios à nossa reflexão.
Não deixa de ser peculiar, e mesmo dramático, que áreas nobres, como o Leblon, no Rio de Janeiro, ou a Avenida Paulista, em São Paulo, tenham sido obrigadas a conviver com importantes cortes no suprimento de eletricidade.
São áreas que concentram elevadas capacidades de geração de riqueza, agrupando uma participação relevante do sistema financeiro nacional, bem como da prestação de serviços de elevadíssimo valor agregado.
Em regiões ricas como essas, a “intensidade energética”, isto é, o valor em R$ que se paga pela energia consumida em relação ao PIB gerado, tende a valores muito baixos. Em outras palavras, esses consumidores demandam quantidades crescentes de energia, porém produzem riquezas astronômicas a partir desse consumo de energia. Assim, para esses consumidores, a garantia de suprimento energético é o “critério” mais importante de qualidade a ser preservado. Os custos com o consumo de energia se tornam irrelevantes em relação ao que se pode perder na eventual ruptura do suprimento energético.
Nessas regiões de elevada densidade populacional e econômica, as distribuidoras de eletricidade instalaram sistemas de cabos subterrâneos, que são muito mais caros, mas de muito maior confiabilidade, já que os fios não se encontram expostos às maluquices do nosso clima de verão, com chuvas e ventos cada vez mais torrenciais e imprevisíveis.
Porém, redes subterrâneas em locais com tráfego complexo e congestionado impõem dificuldades de acesso e períodos mais longos de recuperação dos sistemas em casos de apagão. Justamente em áreas que não podem parar jamais.
E o principal vilão de toda essa confusão é o “ar-condicionado”. Na busca de um maior conforto e da manutenção de condições adequadas de operação para tecnologias de informação (TI) cada vez mais sofisticadas e sensíveis às mudanças de temperatura, as áreas mais ricas do país se sujeitam a riscos intoleráveis de ruptura de suprimento elétrico.
Mas é aqui que os gases combustíveis têm papel nobre a desempenhar, pois sua segurança de suprimento é elevada e podem substituir com vantagens a eletricidade atualmente consumida para a produção de frio (nos verões cada vez mais quentes) e, igualmente, calor (nos invernos).
No Leblon ou na Avenida Paulista (bem como em outros corações econômicos do Brasil), o suprimento de energia precisa ser sustentável. Isso implica, antes de mais nada, edificações praticamente isentas do risco de ruptura do fornecimento de energia. A solução economicamente ideal e, energeticamente, a mais racional encontra-se na promoção da diversificação energética por meio da utilização crescente dos gases combustíveis.
A eletricidade, principalmente em regiões ricas e densas do país, é nobre demais e requer uma utilização racional e focada em seus usos específicos e insubstituíveis. Caberá aos gases combustíveis entregar as soluções tecnológicas compatíveis com o elevado padrão de qualidade requerido no fornecimento da energia térmica (frio ou calor) aos edifícios.
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